quarta-feira, abril 26, 2006

Ainda sobre crianças. Não, não estou esperando nenhuma (*)

Histórias da vida real I



Prólogo:

Um dia destes estava voltando para casa mais cedo (milagrosamente). No ônibus, lá pelo meio do caminho, sobe uma criança que vende jujubas. Ao anunciar seu produto, ela mal consegue pronunciar as palavras direito, cortando sílabas e eliminando plurais. Mas já tem a inflexão típica dos vendedores ambulantes. E comove pela simplicidade.
Gosto de jujubas. E confesso que até nutro simpatia por aquele garotinho. Muitos outros tentam passar uma imagem de sofredores ou "maiorais", mas este passa sinceridade. Talvez por isto eu tenha simpatizado com ele.Porém, naquele momento, eu não queria comprar jujubas. E torci para que alguém comprasse no meu lugar.
Duas senhoras, no banco atrás de mim, compraram. Animei-me e minha consciência ficou menos pesada.


A causa da fúria:

Depois do garotinho descer, as senhoras que compraram e outras começaram a fazer comentários.E fui obrigada a ouvir que :"esse garoto é UMA LIÇÃO DE VIDA!", "tantos maloqueiros sem trabalhar e ele já se esforçando", "é bom assim, porque ele já cresce trabalhando e com responsabilidade".

Uma pergunta que não quer calar:

Acho que há muito tempo que não sentia tanta raiva. Nenhuma daquelas pessoas questionou o fato de ser apenas uma criança. De provavelmente ela estar ali forçada. Nem sequer o fato de ela estar fora da escola.E agora que escrevo isto, me vem um questionamento que gostaria de fazer àquelas pessoas: "Já que esta é uma experiência tão boa, porque seu filho não está aqui?". Porque é isto que eu gostaria de saber.

Depois da tempestade, as reflexões:

Sei que o trabalho constrói. Sei que é preciso ganhar responsabilidade e maturidade. Mas aquele garoto tinha apenas oito anos. E embora minha cidade não seja grande, preocupa-me o fato de já tê-lo visto em linhas de ônibus completamente diferentes, no mesmo dia. Penso no que ele faz quando não é vendedor. Penso em sua perspectiva de futuro. Penso em como ele poderia ser ajudado. E preocupa-me o fato de não ver outros pensando sobre isto.
Onde fica a educação daqueles que fizeram comentários tão infelizes sobre o pequeno vendedor? Tiveram lições de matemática, geografia, português, história, mas não construíram uma consciência política. Sabem sentir pena. Sabem admirar um trabalhador-mirim. Mas não pensam se aquilo é correto ou desejável.
E a situação perdura. Acho que muitos de nós ficam insensíveis com o passar do tempo. Deixam de se revoltar com o que está à sua volta. Direcionam suas mentes para as próprias vidas e problemas. Não se permitem sequer meditar sobre um problema. Bloqueiam qualquer reflexão com um "Isso não adianta. Não posso mudar. Deixa como está". E prosseguem com sua existência.
É por isto que, mesmo não podendo mudar, cansei de ficar quieta. Quem sabe eu não inflamo alguém que possa mudar? Quem sabe, um dia, eu não possa mudar?
Na pior das hipóteses, eu deixo de guardar raiva. Dizem que dá ataque cardíaco.

Fim do episódio

-------------
OBS: o título "Histórias da vida real" aplica-se a fatos que viraram temas de posts. Este título é provisório e a autora não sabe se ele possui direitos autorais. Em caso de problemas, antes de processá-la, favor deixar um comentário. Pelo menos para que ela possa arranjar um advogado :-)


(*)Publicado originalmente em 30/08/2005 em http://spaces.msn.com/members/alekcheephany

1 comentário:

Williamson Goulart (Will) disse...

Realmente devemos ajudar!!!
1º Passo: NÂO contribuir com o trabalho infantil.

Eu sei q da pena, mas é exatamente essa intenção dos exploradores. Nos Comover!!!!!